As tentações de frei Antônio
Luis Fernando Verissimo
Naquela noite, como em todas as noites, frei Antônio atirou-se na cama de pedra coberta com aniagem e palha e tentou não pensar nela. Tinha dado suas nove voltas no claustro, rezando e tentando não pensar nela. Tinha comido o pão seco e a sopa rala no refeitório, entre os outros freires, tentando não pensar nela. Agora, na cama, a única maneira de não pensar nela era dormir. Mas frei Antônio não conseguia dormir, pensando nela.
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- Bacana!
- Eu não disse?
Luana estava de boca aberta. O quarto era mesmo uma beleza.
Quando o Tulio dissera que tinham aproveitado as celas do mosteiro, com pequenas adaptações, para fazerem os quartos, mas que os quartos eram ótimos, ela não acreditara. O quarto era pequeno, e as paredes de pedra tinham sido mantidas. Mas a decoração era linda, e o quarto não era frio, era aconchegante, bem como dizia no prospecto. Aconchegante, dissera o Tulio. Você vai ver. E era.
- O que é aquilo?
- Acho que era onde os monges dormiam.
- Assim, em cima da pedra?
- É, Lu. Mas a nossa cama é aquela ali...
O quarto só tinha uma janela alta e estreita. Quase uma seteira. Naquela noite, depois do amor (“Nunca pensei, fazer isto num mosteiro...”), Luana ficou olhando a luz da lua cheia que entrava pela janela alta e estreita.
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Frei Antônio olhava a janela alta e estreita por onde entrava a luz da lua cheia. Lua. Ela se chamaria Lua. Teria cabelos loiros. Seria uma Lua loira. Senhor, que a porta se abra e entre uma Lua loira. Uma Lua nua. Uma Lua loira e nua. Nua e lua, Senhor. Agora, Senhor, Lua e nua e loira...
Quando finalmente dormia, frei Antônio não sonhava com ela. Sonhava com o inferno. Sonhava com o sol. As vezes acordava no meio da noite suado, e pensava: “As chamas são para você aprender, Antônio. São o seu castigo”. Mas castigo por que, se a porta nunca se abria, se a Lua não estava deitada ao seu lado? Ela só existe na minha imaginação. Eu a conjuro e ela não vem. Eu a amo e ela nunca virá. E eu arderei no Inferno só pelo que pensei.
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- Imagina a vida que eles levavam, Tulio.
- Quem?
- Os monges. Deviam ficar ali, deitados, coitadinhos...
- Pensando em mulher.
- Será? Acho que não. Tinham escolhido uma vida sem mulher. Sem sexo.
- Falando nisso, chega pra cá, chega.
- Não. Pára. Como seria o nome dele?
- De quem?
- Do monge que vivia nesta cela.
- Sei lá. Isto aqui deixou de ser mosteiro há uns cem anos...
Luana ficou pensando no último monge que ocupara aquela cela, cem anos antes. Como seria ele? Passou a imaginá-lo. Imaginou-se entrando na sua cela e deitando-se com ele. Assim como estava, nua. Ele a expulsaria da sua cama de pedra? Coitadinho.
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Frei Antônio sentiu que havia outro corpo com ele na cama. Sentiu seu calor. Mas não abriu os olhos. Não virou a cabeça. Estava sonhando, claro. Tinha medo de abrir os olhos e descobrir que não havia ninguém ali. Tinha medo que o calor fosse embora. Ouviu uma voz de mulher perguntar:
- Como é o seu nome?
- Antônio. E o seu?
Mas não houve resposta. Frei Antônio abriu os olhos e viu a luz da lua cheia saindo pela janela.
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- Antônio...
- Ahn?
- O quê?
- Você disse “Antônio”.
- Eu? Tá doido?
- Estava sonhando com quem?
- Com ninguém.
- Chega pra cá, chega.
- Ó Tulio. Você só pensa nisso?
- É que, sei lá. Esse quarto está carregado de sexo. Tem sexo escorrendo pelas paredes. Você não sente?
- Não.
- Já sei! Vamos fazer amor na cama de pedra.
- Não. Na cama dele não.
Domingo, 16 de outubro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.